A religiosidade como estratégia de mudança social | Blog Unigran Net

Família King Unigran Net“Eu tenho um sonho. O sonho de ver meus filhos julgados pelo caráter e não pela cor da pele.”

Essa frase é sempre lembrada quando falamos de preconceito. Foi em meio a segregação social que ela surgiu. Dita por Martin Luther King, que foi (e ainda é!) um dos gigantes símbolos norte-americanos de luta pelos direitos civis.

Martin Luther King nasceu em 15 de janeiro de 1929, em Atlanta, Geórgia. Graduou-se primeiramente em Sociologia, fazendo, em seguida, Teologia no seminário Teológico de Crozer na Pensilvânia. Posteriormente recebeu o título de doutor em Filosofia, pela faculdade de Teologia da Universidade de Boston.

No entanto, sua formação religiosa foi construída ainda dentro do lar e de uma igreja fortemente enraizada na vibrante tradição cristã dos Estados Unidos. Essa criação foi fundamental, acima de tudo, para uma forte espiritualidade exposta de modo particular em sua prática social. Uma vez que, Luther King também estudou a vida e a obra de Mahatma Ghandi desde cedo. Passando a partilhar de suas ideias de não violência como estratégia para mudanças sociais, como podemos ver em um dos seus discursos anos depois:

“No processo de conquistar nosso legítimo direito, nós não devemos ser culpados de ações de injustiças. Não vamos satisfazer nossa sede de liberdade bebendo da xícara da amargura e do ódio. Nós sempre temos que conduzir nossa luta num alto nível de dignidade e disciplina. Nós não devemos permitir que nosso criativo protesto se degenere em violência física.”

O divisor de águas que mudou a vida de King foi sua designação para o pastorado da Igreja Batista da Avenida Dexter. O lugar ficava em Montgomery, Alabama, onde havia forte discriminação e segregação racial.

Um ano depois de sua chegada, uma mulher negra se recusa a ceder seu lugar a um branco num dos ônibus da cidade. Razão pela qual foi presa por desacato às leis segregacionistas, no dia 1 de dezembro de 1955.

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O episódio colocou a questão racial em debate nacional. Gerando um movimento que durou um ano, visando impressionar o Estado a abolir este tipo de segregação.

A reivindicação foi acatada pela Suprema Corte Americana, que determinou o fim da discriminação nos transportes públicos.

A partir destes acontecimentos o doutor em teologia e filosofia deu lugar ao audacioso pastor-ativista.

“Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto o negro for vítima dos horrores indizíveis da brutalidade policial. Nós nunca estaremos satisfeitos enquanto nossos corpos, pesados com a fadiga da viagem, não poderem ter hospedagem nos motéis das estradas e nos hotéis das cidades. Nós não estaremos satisfeitos enquanto um negro não puder votar no Mississipi e um negro em Nova Iorque acreditar que ele não tem motivo para votar. Não, não, nós não estamos satisfeitos e nós não estaremos satisfeitos até que a justiça e a retidão rolem abaixo como águas de uma poderosa correnteza.”

Nos anos que seguiram, King se manifestou cada vez mais politicamente na luta contra o racismo, tanto local como nacionalmente. Liderou uma série de protestos em diversas cidades norte-americanas contra a segregação racial em espaços públicos e pelos direitos civis do negro. Em 1960, os negros conquistaram o direito de acesso a bibliotecas, parques e lanchonetes.

É importante ressaltar que na década de 60 a questão racial era apenas uma parte da luta nos EUA. Além das greves, existia a luta dos trabalhadores e a participação dos EUA em golpes e conflitos militares no mundo inteiro.

Uma série de vigílias, atentados e prisões aconteceram. Criando condições para maior mobilização e organização – em um nível local, regional e nacional – do movimento dos direitos civis.

O que possibilitou, em 1963, a primeira demonstração em escala nacional. No dia 28 de agosto, foi proferido o discurso “I Have a Dream” [Eu tenho um sonho, em tradução livre]:

“Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença. Nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais…”.

Em 1964, King se envolve em diversos protestos por todo sul dos EUA, sendo a “não violência” a forma utilizada para articular sua luta. Isto é, uma resistência firme, mas pacífica.

Inclusive neste ano, Luther King foi contemplado com o Nobel da Paz, o mais jovem ganhador deste importante prêmio até então. Mesmo assim, o pastor e líder político foi preso diversas vezes, recebendo duras críticas e sofrendo ameaças por seus posicionamentos.

A batalha de Luther King pelos direitos civis dos negros teve êxito com a aprovação da Lei dos Direitos Civis. No ano seguinte, mais uma importante conquista aconteceria: a aprovação da Lei dos Direitos de Voto para os negros.

Logo após, toma a decisão que trouxe graves consequências para os anos finais de sua vida: desloca sua ação no movimento dos direitos civis para o norte dos EUA. Os tumultos urbanos, particularmente do norte do país, exemplificaram o desencantamento com a estratégia não violenta fortemente defendida por ele.

King também lutou em favor de oportunidades de emprego para os pobres. E em 1967, uniu-se ao movimento pela paz na Guerra do Vietnã, lançando um forte ataque a política militarista norte-americana no Vietnã e em outros países.

Em fevereiro de 1968, ocorre a greve de trabalhadores dos serviços de água e esgoto de Memphis, no estado do Tennessee, que foi apoiada pelo pastor. Foi nessa mesma cidade, no dia 3 de abril diante do público grevista, que King proferiu o discurso “Eu estive no alto da montanha”:

“Temos de enfrentar dificuldades, mas isso não me importa, pois eu estive no alto da montanha. Eu gostaria de viver bastante, como todo o mundo, mas não estou preocupado com isso agora. Só quero cumprir a vontade de Deus, e ele me deixou subir a montanha. Eu olhei de cima e vi a terra prometida. Talvez eu não chegue lá, mas quero que saibam hoje que nós, como povo, teremos uma terra prometida. Por isso estou feliz esta noite. Nada me preocupa, não temo ninguém. Vi com meus olhos a glória da chegada do Senhor”.

Martin Luther King foi assassinado no dia seguinte, em 4 de abril de 1968.

Hoje existem inúmeros livros que descrevem a vida de Martin Luther King e seus célebres discursos. Sua luta foi um marco histórico na defesa dos direitos civis de toda a humanidade.

Seu legado influenciou o fim do Apartheid na África do Sul e permitiu que o mundo assistisse, na primeira década do século XXI, a ascensão do primeiro presidente negro dos Estados Unidos da América: Barack Obama.

“Quando nós permitirmos o sino da liberdade soar, quando nós o deixarmos soar em toda moradia e todo vilarejo, em todo estado e em toda cidade, nós poderemos acelerar aquele dia quando todos os filhos de Deus, homens pretos e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantar as palavras da antiga canção espiritual negra: ‘Finalmente livres, finalmente livres. Graças a Deus Todo-Poderoso, nós somos livres, finalmente!’” – Martin Luther King

Referências: Fundação Cultural Palmares; Alô Escola – TV Cultura; “A trajetória de Martin Luther King Jr. Uma obra inacabada”, de Paulo Mattos, extraído dos documentos da UFPR.

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